Bruno Goulart
Apesar de contar com a maior bancada do Centro-Oeste na Câmara dos Deputados, Goiás acumula, ao longo das últimas legislaturas, um dado incômodo: a quase ausência em espaços importantes do Congresso Nacional. A distribuição mais recente das comissões permanentes da Câmara dos Deputados, mantida por acordo entre os líderes partidários, reforçou um cenário que já se repete há anos: nenhum parlamentar goiano à frente de colegiados relevantes e participação tímida mesmo como membro efetivo.
Para se ter dimensão da perda de protagonismo, o último deputado de Goiás a comandar uma comissão de destaque foi o vice-governador Daniel Vilela (MDB), quando presidiu a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a mais importante da Casa. Antes do emedebista, outro nome de peso foi o ex-deputado Jovair Arantes (Republicanos), relator do processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) e figura que chegou a ensaiar candidaturas a presidente da Câmara. Mais recentemente, o deputado Glaustin da Fokus (Podemos) integrou a Comissão Mista da Reforma Tributária, mas sem protagonismo decisório.
De acordo com o mestre em História e especialista em políticas públicas Tiago Zancopé, a resposta passa por uma combinação de fatores estruturais e comportamentais. “Essa baixa participação e relevância dos deputados goianos reverbera um certo desinteresse em pautas de envergadura nacional, que dizem respeito à construção do Estado Nacional ou da República como um todo”, afirma. Segundo Zancopé, esse tipo de agenda exige “esforço intelectual, estudo, leitura de pareceres, reuniões e equipes preparadas”, algo que muitos parlamentares preferem evitar.
Atuação mais qualificada
Zancopé avalia que poucos, nos últimos anos, ensaiaram uma atuação mais qualificada no debate nacional. “Quem minimamente tentou isso foi o Francisco Júnior (PSD), mas não foi reconduzido. Depois dele, o que vemos é uma participação muito mais voltada a inflar o debate ‘bolsonarismo contra petismo’”, diz, ao citar nomes como o do deputado Gustavo Gayer (PL).
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Além disso, o especialista aponta que parlamentares que poderiam ocupar maior protagonismo parecem não priorizar esse caminho. “Adriana Accorsi e Rubens Otoni poderiam ter mais espaço, mas o PT goiano não é um dos mais fortes nacionalmente. O partido nunca governou o Estado, ao contrário do que ocorreu no DF ou no Mato Grosso do Sul”, analisa.
Outro ponto, segundo Zancopé, é a fragilidade da base eleitoral. “O deputado precisa ter dois pés bem firmes: um em Brasília e outro no Estado. Em Goiás, muitos não conseguem construir uma base sólida e passam mais tempo cuidando da sobrevivência eleitoral do que da política nacional”, explica. Na prática, isso resulta em parlamentares que “vão para Brasília olhando para Goiás, e não pensando o Brasil a partir de Goiás”.
Essa lógica, avalia, leva à fuga de debates importantes. “Eles evitam relatorias e comissões que exigem dedicação ou geram desgaste. Pensam ‘vou ficar longe da base’ ou ‘isso pode me queimar’. Mas política é ocupar espaço. Não se envolver é perder de largada”, dispara.
Zancopé é direto ao citar exemplos: “Ismael Alexandrino (PSD), Jefferson Rodrigues (Republicanos): que matérias relataram? Que comissões ocuparam? Fica a sensação de que estamos mandando parlamentares avessos ao debate nacional”. O historiador ressalva que o deputado Zacharias Calil (UB) aparece pontualmente em pautas da saúde e faz uma “menção honrosa” à líder da bancada goiana, deputada Flávia Morais (PDT). “Ela tenta liderar um debate mais qualificado, mas esbarra na própria legenda, o que explica a tendência de buscar outro partido.”
Bancada mais fraca dos últimos anos
Na mesma linha, o sociólogo e pesquisador Jones Matos classifica a atual bancada como uma das mais fracas dos últimos anos. “Temos hoje uma das piores bancadas, tanto na Câmara quanto no Senado. Falta preparo intelectual para o debate nacional e internacional”, afirma. Segundo Matos, na Câmara, o problema é ainda mais evidente. “A produção é baixíssima. Estão focados apenas nas emendas impositivas”, critica.
Para Matos, a centralidade das emendas substituiu o papel político do mandato. “O que sobra é mandar dinheiro para comprar ambulância e trator, sem planejamento. Para participar de comissões importantes é preciso dominar a pauta. E a maioria deixa a desejar”, conclui. (Especial para O HOJE)










