A suspensão da greve dos profissionais da saúde em Goiânia não encerrou o conflito entre sindicatos e prefeitura, mas marcou um recuo estratégico diante da abertura de um canal formal de negociação mediado pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO).
Após dias de paralisação, pressão popular e discursos conflitantes, médicos, enfermeiros, farmacêuticos e técnicos decidiram interromper o movimento paredista para priorizar o diálogo institucional, reduzir prejuízos imediatos à população e manter a mobilização organizada.
A decisão foi tomada em assembleias conjuntas, com participação de diversas entidades representativas, e ocorre em um contexto de desgaste da imagem tanto da gestão municipal quanto das categorias envolvidas.
Na prática, o recuo foi motivado por três fatores centrais: a intervenção do ministério com garantias jurídicas de negociação, o compromisso da prefeitura de analisar propostas e apresentar contraproposta em prazo definido, e a preocupação dos sindicatos com o impacto prolongado da greve sobre usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).
Ao mesmo tempo, as entidades deixaram claro que a suspensão não significa o fim das reivindicações. Pelo contrário, o movimento segue ativo, com nova assembleia já agendada para avaliar o cumprimento dos acordos.
Do ponto de vista institucional, o Sindicato dos Médicos do Estado de Goiás (Simego) orientou o retorno imediato dos profissionais credenciados aos postos de trabalho, com registro de ponto e atendimento normal.
A presidente do sindicato, Franscine Leão, reforçou em ofício à Secretaria Municipal de Saúde (SMS) que o movimento reivindicatório permanece, ainda que sem paralisação. Já o Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde no Estado de Goiás (Sindsaúde-GO) destacou que a decisão buscou preservar a população sem abrir mão da cobrança por mudanças estruturais no modelo de contratação e gestão da saúde municipal.
Greve motivada por esperança de melhorias
A greve foi realizada após semanas de tensão entre a gestão municipal e entidades representativas da saúde. Profissionais denunciaram o que classificam como precarização dos vínculos de trabalho, redução de honorários em até 35% em algumas especialidades, insegurança jurídica nos contratos de credenciamento e ausência de garantias básicas, como férias e licenças. Além disso, relataram falta de insumos, medicamentos e problemas de segurança em unidades de saúde, em contraste com o discurso oficial de normalidade.
O movimento teve início na terça-feira, 13 de janeiro, com manifestação em frente ao Ciams Jardim América, e envolveu médicos, enfermeiros, farmacêuticos e técnicos. Atos pontuais também ocorreram em outras regiões, como protestos contra o fechamento da urgência do Cais Cândida de Morais.
Um dia após o início da paralisação, o prefeito Sandro Mabel (União Brasil) adotou um tom duro ao afirmar que não havia abertura para diálogo, alegando baixa adesão segundo ele, apenas 14 médicos e limitação orçamentária. “Não temos mais dinheiro para gastar”, declarou, afirmando ainda que a prefeitura paga valores acima do mercado.
Apesar da fala do prefeito, a pressão política, sindical e institucional cresceu, levando à mediação do MP-GO. Em reunião realizada na quarta-feira (14), a gestão municipal se comprometeu a analisar as propostas apresentadas, formular contraproposta até 21 de janeiro e não adotar medidas punitivas contra os grevistas. Também ficou decidido o adiamento da entrada em vigor da Portaria nº 13/2026 e a análise, pelo Simego, do novo edital de credenciamento médico.
Para a presidenta do Sindsaúde-GO, Néia Vieira, a suspensão da greve foi uma decisão responsável. “A mobilização segue firme. Este é um momento estratégico para cobrar da gestão a implantação da Mesa Municipal de Negociação Permanente do SUS em Goiânia, a convocação de aprovados em concursos e a realização de novos certames. Sem vínculos estáveis, não há SUS de qualidade”, afirmou.
Discurso otimista de Mabel e o contraste com a realidade
Embora a prefeitura tenha anunciado a retomada integral do atendimento a partir de sexta-feira, 16 de janeiro, usuários relataram que os reflexos da greve persistiram em diversas unidades.
Três dias após o início da paralisação, UPAs como a do Jardim América registraram longas filas e demora no atendimento, com pacientes aguardando por horas, alguns desde a madrugada. Em vários locais, o atendimento ficou restrito a casos de urgência e emergência, ampliando a sensação de insegurança e abandono entre a população.
Esse cenário expôs um contraste evidente entre a experiência dos usuários e o discurso otimista do prefeito Sandro Mabel, que, mesmo durante o período de paralisação, afirmou que “2026 é o ano da transformação na saúde”. No mesmo intervalo em que a rede enfrentava greves e queixas por demora, a prefeitura promovia entregas de colchões, lençóis e equipamentos, destacando investimentos em conforto e dignidade. Para críticos, a narrativa positiva não dialogou com a realidade imediata de quem aguardava atendimento.
O secretário municipal de Saúde, Luiz Pellizzer, afirmou que o fluxo assistencial foi reorganizado com a suspensão da greve e que todas as unidades operam com escalas completas. Segundo ele, a retomada permite restabelecer protocolos e melhorar o tempo de resposta à população. Já a gerente de Urgência e Emergência da SMS, Jeisa Cristina, ressaltou que a normalização reduz a sobrecarga sobre equipes que permaneceram em atividade durante o movimento.
Ainda assim, especialistas e representantes sindicais avaliam que a greve deixou marcas na imagem da gestão e das categorias. Para os profissionais, o desafio agora é reconstruir a confiança da população, explicando que a paralisação foi uma ferramenta de pressão diante de impasses históricos. Para a prefeitura, o episódio evidenciou contradições entre o discurso de transformação e a insatisfação concreta de quem sustenta o funcionamento diário do SUS.
Com nova rodada de negociação marcada no MP-GO e assembleia prevista para o dia 22 de janeiro, o desfecho do conflito segue em aberto. A suspensão da greve aliviou momentaneamente o sistema, mas o futuro da saúde municipal de Goiânia dependerá, sobretudo, da capacidade de transformar promessas em acordos efetivos para trabalhadores e, principalmente, para a população que depende do atendimento público.
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